Percepção Consciente: O Concerto
Publicado por Mição em 30/Agosto/2008
‘Aquela poderia ser mais uma manhã como outra qualquer. Eis que o sujeito desce na estação do metrô: vestindo jeans, camiseta e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, bem na hora do rush matinal. Mesmo assim, durante os 45 minutos que tocou, foi praticamente ignorado pelos passantes.
Ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares.
Alguns dias antes Bell havia tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam a bagatela de 1000 dólares. A experiência, gravada em vídeo, mostra homens e mulheres de andar ligeiro, copo de café na mão, celular no ouvido, crachá balançando no pescoço, indiferentes ao som do violino. A iniciativa realizada pelo jornal The Washington Post era a de lançar um debate sobre valor, contexto e arte.
A conclusão: estamos acostumados a dar valor às coisas quando estão num contexto. Bell era uma obra de arte sem moldura. Um artefato de luxo sem etiqueta de grife. Esse é um exemplo daquelas tantas situações que acontecem em nossas vidas que são únicas, singulares, e a que não damos a menor bola porque não vêm com a etiqueta de seu preço. O que tem valor real para nós, independentemente de marcas, preços e grifes? É o que o mercado diz que você deve ter, sentir, vestir ou ser?
Essa experiência mostra como na sociedade em que vivemos os nossos sentimentos e a nossa apreciação de beleza são manipulados pelo mercado, pela mídia, e pelas instituições que detém o poder financeiro. Mostra-nos como estamos condicionados a nos mover quando estamos no meio do rebanho.’










Alencar disse
Discordo do último parágrafo. É uma característica típica da nossa sociedade tercerizar a culpa. É fácil dizer que a mídia manipula nossos sentimentos e a forma como apreciamos as coisas. Mas neste caso, onde está a participação da mídia? Temos sim, gente com pressa – por causa do trabalho. Mas o som estava ali, presente para todos, bastava apenas a vontade de apreciá-lo. A grande questão é que as pessoas não sabem o que é bom e o que não é. Tenho certeza que a mesma “experiência” poderia ser feita com um quadro de uma pessoa famosa ou qualquer forma de expressão artística. Estamos condicionados – isso sim – a perceber o valor apenas dentro de um contexto, de uma embalagem. As pessoas perdem seus dias assistindo programas idiotas na TV e a culpa é apenas delas. Os programas com conteúdo mais rico – com cultura, educação, arte, conhecimento – nunca têm audiência. Se um programa n tem audiência ele vai para horários menos nobres, ou sai do ar.
Quem faz a programação é o público – a emissora segue os caminhos da audiência.
De fato perdemos a noção do que é bom e do que é ruim. Não sabemos distinguir um gênio de um mero aprendiz – e o pior é que a culpa é inteiramente nossa.