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Invisibilidade Pública

Posted by Mição em 30/agosto/2008

Fonte: Antônio Corrêa Neto OnLine

“Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível”
por Plinio Delphino

Fernando Braga (à dir.)

O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são ‘seres invisíveis, sem nome‘. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da ‘invisibilidade pública’, ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:

Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência‘, explica o pesquisador.

O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. ‘Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão‘, diz.
Apesar do castigo do sol forte, do trabalho pesado e das humilhações diárias, segundo o psicólogo, são acolhedores com quem os enxerga. E encontram no silêncio a defesa contra quem os ignora.

Diário – Como é que você teve essa idéia?

Fernando Braga da Costa – Meu orientador desde a graduação, o professor José Moura Gonçalves Filho, sugeriu aos alunos, como uma das provas de avaliação, que a gente se engajasse numa tarefa proletária.

Uma forma de atividade profissional que não exigisse qualificação técnica nem acadêmica. Então, basicamente, profissões das classes pobres.

Com que objetivo?
A função do meu mestrado era compreender e analisar a condição de trabalho deles (os garis), e a maneira como eles estão inseridos na cena pública. Ou seja, estudar a condição moral e psicológica a qual eles estão sujeitos dentro da sociedade. Outro nível de investigação, que vai ser priorizado agora no doutorado, é analisar e verificar as barreiras e as aberturas que se operam no encontro do psicólogo social com os garis.

Que barreiras são essas, que aberturas são essas, e como se dá a aproximação?
Quando você começou a trabalhar, os garis notaram que se tratava de um estudante fazendo pesquisa?
Eu vesti um uniforme que era todo vermelho, boné, camisa e tal.
Chegando lá eu tinha a expectativa de me apresentar como novo funcionário, recém-contratado pela USP pra varrer rua com eles. Mas os garis sacaram logo, entretanto nada me disseram. Existe uma coisa típica dos garis: são pessoas vindas do Nordeste, negros ou mulatos em geral. Eu sou branquelo, mas isso talvez não seja o diferencial, porque muitos garis ali são brancos também. Você tem uma série de fatores que são ainda mais determinantes, como a maneira de falarmos, o modo de a gente olhar ou de posicionar o nosso corpo, a maneira como gesticulamos. Os garis conseguem definir essa diferenças com algumas frases que são simplesmente formidáveis.

Dê um exemplo.
Nós estávamos varrendo e, em determinado momento, comecei a papear com um dos garis.
De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de idade, subindo a rua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro na mão.
O sujeito passou pela gente e não nos cumprimentou, o que é comum nessas situações.

O gari, sem se referir claramente ao homem que acabara de passar, virou-se pra mim e começou a falar:

É Fernando, quando o sujeito vem andando você logo sabe se o cabra é do dinheiro ou não.
Porque peão anda macio, quase não faz barulho. Já o pessoal da outra classe você só ouve o toc-toc dos passos. E quando a gente está esperando o trem logo percebe também: o peão fica todo encolhidinho olhando pra baixo. Eles não. Ficam com olhar só por cima de toda a peãozada, segurando a pastinha na mão
‘.

Quanto tempo depois eles falaram sobre essa percepção de que você era diferente?
Isso não precisou nem ser comentado, porque os fatos no primeiro dia de trabalho já deixaram muito claro que eles sabiam que eu não era um gari.
Fui tratado de uma forma completamente diferente. Os garis são carregados na caçamba da caminhonete junto com as ferramentas.

É como se eles fossem ferramentas também. Eles não deixaram eu viajar na caçamba, quiseram que eu fosse na cabine. Tive de insistir muito para poder viajar com eles na caçamba. Chegando no lugar de trabalho, continuaram me tratando diferente.
As vassouras eram todas muito velhas. A única vassoura nova já estava reservada para mim. Não me deixaram usar a pá e a enxada, porque era um serviço mais pesado.

Eles fizeram questão de que eu trabalhasse só com a vassoura e, mesmo assim, num lugar mais limpinho, e isso tudo foi dando a dimensão de que os garis sabiam que eu não tinha a mesma origem socioeconômica deles.

Quer dizer que eles se diminuíram com a sua presença?
Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger.

Eles testaram você?
No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse:
E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?‘ E eu bebi.
Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.

E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando – professor meu – até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.

E quando você volta para casa, para seu mundo real?
Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses
homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.
Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma ‘COISA’.

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10 Respostas to “Invisibilidade Pública”

  1. Marieci said

    Todos os dias, passo enfrente a um grupo de Garis pela manhã, onde se reunem para começarem a trabalhar…
    Nossa é verdade , ninguém olha, ninguem vê…
    Acho que amanhã vou tentar um “Bom dia”

    Parabéns Fernando Braga Costa

  2. Virginia said

    Talvez por morar no litoral não vejo discriminação acintosa contra os garis q limpam a praia. Até pelo contrário. Muita gente faz questão de cumprimentar e fazer um comentário sobre o tempo. E interessante, sempre ouço algum cantando.

  3. Ana said

    Fernando, enfrento a mesma situação que a sua. Sou dona de um pequeno comércio (mas, poucos sabem pq não fico anunciando), e, tenho q servir mesas… gente conhecida não me reconhece… por um outro lado, sou publicitária tbém e atuo nas duas profissões, aí, os q nem me cumprimentam como garçonete, o fazem no outro trabalho… louco, né?! E eles não se dão conta!! Enfim… essa experiência tbém tem mudado mto de mim.

  4. Veridiana Roberta Aranha said

    São seres humanos como qualquer outro e melhor do que muitos que tem um diploma , pois estão suando a camisa pra ter uma vida que se só sobrevi mesmo !!!
    Parabéns Fernando por sua coragem e dedicação !!
    Só assim pra sociedade abrir os olhos e ver que somos todos iguais, pena que nem todos são como você !
    Eu venho de uma família humilde e tenho o maior orgulho de meu avô, que aprendeu a ler para poder tirar carteira de habilitação para poder ser motorista da prefeitura de Mococa. Assim ele sustentou nossa família e seus 8 filhos até se aposentar e hoje tem uma aposentadoria bem menos miserável que muitos neste Brasil !!
    Parabéns novamente !!

  5. Paloma alves said

    Fernando,descobri o seu trabalho através da tv aberta, e fiquei realmente muito impressionada com a sua escolha para traçar sua vida acadêmica. Nunca ouvira falar de nada parecido nos tempos de hoje, em que a sociedade não dá chance para uma classe menos favorecida economicamente, “ser curado da doença burguesa” foi algo que me marcou muito!Parabéns o seu trabalho é especial , é uma porta aberta para mundanças… um abraço!

  6. Fátima said

    Fernando,
    Eu adorei ter recebido de um amigo o email que conta a sua estória. Posso lhe dizer que Graças a Deus eu sempre tive essa consciência em tratar as pessoas com igualdade.Eu cumprimento todos no meu trabalho, desde os jardineiros,a senhora da limpeza que faz um cafezinho delicioso (sem ter essa obrigação), os médicos, procuro sempre dizer a ela como seu café é gostoso e como é bom começar o dia com ele.Certa vez estava em Florianópolis onde minha filha faz faculdade, e estivemos em um shopping….ao entrar no banheiro, cumprimentei uma moça que trabalhava ali.Minha filha até chorou quando a moça ficou surpreendida com meu cumprimento e disse: Pôxa,obrigado por me cumprimentar!Aqui entram muitas pessoas no dia que parecem não me enxergar, parece que faço parte do banheiro.Isso é realmente muito triste.
    Abraços a você. Parabéns!
    Vou mandar sua estória para todos os meus amigos.

  7. Juliana said

    Parabéns!
    Adorei saber de sua história, e tenho uma pequena pra contar também, mudei muito meu meio de ver estas profissões quando tive minha filha, e temos que ensinar as crianças esta “realidade social” moro em Brasília, onde existem muitos Garis e eles limpam a cidade pois tem muitas árvores e cai muitas folhas no chão, um dia passamos por eles no caminho da escola e ela me perguntou “O que ele esta fazendo mamãe? eu então respondi, limpando nossa cidade filha, as árvores derrubam folhas e eles pegam para a cidade ficar limpa! ela então olhou para o Gari e disse já meio de longe, Obrigada Gari, por deixar nossa cidade limpa! ele olhou quase sem acreditar e com os olhos cheio de lágrimas deu um sorriso a ela. Outro dia estávamos passeando a noite e ela viu um Gari, ela então perguntou, Mamãe ele não dorme? eu respondi que sim, que eles são pessoas normais como nós e que comem quando tem fome, dorme quando tem sono e que não era os mesmos que sempre vemos pela manhã ela ficou mais sossegada. Devemos as crianças explicações e depende de nós o que elas serão e que sejam pessoas melhores assim como você!

    obs: Minha filha tem 4 anos! e farei de tudo pra ela não esquecer disso no futuro

  8. Paulo Roberto da Silva said

    Sou pastor presbiteriano, presidente de uma ONG socioambiental e par manter o projeto faço reciclagem nas ruas de Osasco, trabalho com os catadores de um acampamento dos sem-teto e sinto a mesma experiência do Fernando Braga, só que muitos me conhecem nas duas funções e estranham aos que não me conhecem me tornam uma coisa qualquer ambulante, eu aproveito para fazer estudo de campo do comportamento humano e um pouco de teatro invisível a la Augusto Boal.É muito rica o aprendizado.Quem se interessar pelo projeto acesse o orkut: Paulo Abya Yala e veja as fotos.
    abraço e parebes!

  9. jo said

    Achei a tese muito interessante , li a respeito da mesma em um livro de 7° ano do ensino fundamental na escola que trabalho. a tese é comovente e real verdadeiramente as pessoas são vista não pelo que são como seres humanos mais sim são valorizadas pela função social que ocupa, afinal a sociedade é muito hipócrita mesmo. o dinheiro e o cargo esta acima de tudo

  10. […] Invisibilidade Pública no Blogção. […]

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